O público está cansado de influencers ou do conteúdo que todos estão fazendo?
Durante muito tempo, a recomendação para quem queria crescer nas redes sociais era praticamente universal:
produza mais conteúdo.
Publique todos os dias.
Faça Reels.
Entre nas trends.
Apareça nos Stories.
Crie vídeos curtos.
Esteja presente em todas as plataformas.
O problema é que essa lógica criou um efeito colateral previsível.
Existe conteúdo demais.
E agora começa a surgir uma pergunta que pode ser desconfortável para a economia dos creators:
as pessoas estão cansadas dos creators?
A resposta mais interessante é: sim e não.
Pesquisas recentes mostram que mais da metade dos consumidores considera que existem influencers demais, mas isso não significa que tenham deixado de acompanhar ou consumir seus conteúdos.
O que parece estar acontecendo é algo mais complexo.
O público não necessariamente está cansado de pessoas.
Está cansado de conteúdo que parece não ter motivo para existir.
O problema não é quantidade. É repetição
Todos os dias aparecem milhares de vídeos com praticamente a mesma estrutura.
“3 coisas que você precisa saber…”
“Pare de fazer isso…”
“Você está cometendo esse erro…”
“Eu descobri um segredo…”
“POV…”
“Você não vai acreditar…”
A fórmula funciona.
Até todo mundo começar a utilizá-la.
Quando a mesma estrutura é repetida milhares de vezes, ela perde parte da capacidade de surpreender.
O usuário começa a reconhecer a fórmula antes mesmo de terminar o vídeo.
E quando isso acontece, a atenção fica mais difícil de conquistar.
O público está mais desconfiado das publis
Existe outro problema: a transformação do conteúdo em publicidade.
Uma pessoa acompanha determinado creator porque gosta de sua personalidade, opinião ou conhecimento.
Depois começa a perceber que praticamente todo conteúdo termina em uma recomendação de produto.
A relação muda.
O público começa a perguntar:
“Ele realmente usa isso ou está falando porque recebeu para divulgar?”
Essa desconfiança não é apenas uma percepção isolada.
Um estudo divulgado no Brasil em 2026 apontou que 73% dos entrevistados sentem algum nível de saturação com conteúdos patrocinados nas redes sociais. Ao mesmo tempo, apenas uma minoria disse preferir que as publis simplesmente desaparecessem.
Ou seja, o problema não parece ser necessariamente a publicidade.
É a publicidade que deixou de parecer conteúdo.
A autenticidade virou diferencial porque ficou rara
Durante anos, “autenticidade” virou uma palavra tão utilizada no marketing que quase perdeu significado.
Todo mundo quer parecer autêntico.
Mas existe uma diferença entre parecer espontâneo e realmente ter algo próprio para dizer.
O conteúdo excessivamente roteirizado, produzido e comercial pode começar a transmitir uma sensação de distância.
Por isso, tendências recentes apontam para conteúdos mais naturais, bastidores, interação direta e construção de comunidade. Eva Chen, da Meta, por exemplo, defendeu recentemente uma abordagem menos “preciosa” na produção, com mais personalidade e menos transformação de cada postagem em uma grande campanha.
Isso não significa que produção profissional deixou de funcionar.
Significa que produção sem personalidade pode não ser suficiente.
O problema de transformar todo mundo em influencer
Outro fenômeno interessante é a transformação do creator em modelo de negócio.
Hoje, não basta criar.
O creator precisa:
Produzir.
Editar.
Publicar.
Analisar métricas.
Negociar contratos.
Fazer publicidade.
Construir comunidade.
Responder mensagens.
Criar produtos.
Participar de eventos.
Alimentar várias plataformas.
O resultado é uma indústria que exige cada vez mais conteúdo.
E mais conteúdo gera mais pressão.
Relatórios recentes de 2026 mostram que o próprio mercado de creators enfrenta sinais de esgotamento, enquanto a audiência também demonstra fadiga.
É um ciclo curioso:
o creator está cansado de produzir e o público está cansado de consumir.
O algoritmo pode aumentar o problema
As plataformas precisam manter as pessoas consumindo.
Por isso, seus sistemas de recomendação selecionam continuamente aquilo que acreditam que cada usuário terá interesse em assistir.
Isso cria uma disputa permanente pela atenção.
E quando determinado formato funciona, milhares de pessoas começam a reproduzi-lo.
A consequência é uma espécie de padronização do conteúdo.
Todo mundo quer fazer o que o algoritmo está entregando.
Mas, quando todos fazem a mesma coisa, o feed fica previsível.
Curiosamente, o próprio Instagram vem defendendo a importância dos algoritmos para evitar uma experiência dominada simplesmente pela frequência de publicação, que poderia favorecer marcas e contas que postam constantemente.
Seguidores estão perdendo importância
Outro sinal importante dessa transformação é que tamanho de audiência já não conta toda a história.
Uma pesquisa de 2026 da Sprout Social apontou que apenas 17% dos consumidores pesquisados verificam o número de seguidores de um creator antes de decidir interagir com seu conteúdo. A relevância do assunto e o estilo do conteúdo aparecem como fatores mais importantes.
Isso é significativo.
Durante anos, seguidores eram tratados como uma espécie de moeda de influência.
Agora, uma comunidade menor e realmente interessada pode ser mais valiosa do que uma audiência gigantesca e indiferente.
O creator que só vende começa a perder força
Imagine acompanhar alguém por meses.
Você gosta das opiniões.
Acompanha a rotina.
Aprende alguma coisa.
Cria uma relação de confiança.
Então, de repente, praticamente tudo vira anúncio.
A percepção de valor começa a mudar.
Isso é especialmente importante porque pesquisas acadêmicas recentes encontraram evidências de um efeito chamado “sponsored content residue”, no qual uma publicação patrocinada pode afetar negativamente o engajamento da publicação seguinte, embora esse efeito diminua com o tempo.
A publicidade, portanto, não precisa ser eliminada.
Mas precisa ser utilizada com inteligência.
A nova moeda pode ser a confiança
Se todo mundo consegue produzir vídeos bonitos, editar rapidamente e utilizar inteligência artificial para gerar roteiros, imagens e ideias, o conteúdo visualmente perfeito deixa de ser uma vantagem tão rara.
O que fica mais difícil de copiar?
Confiança.
Experiência.
Personalidade.
Reputação.
Comunidade.
Conhecimento.
Histórias.
Ponto de vista.
É por isso que creators especializados em determinados assuntos podem continuar ganhando força mesmo sem números gigantescos.
Eles não são apenas distribuidores de publicidade.
São referências para uma determinada comunidade.
O conteúdo longo pode voltar a ganhar espaço
A obsessão pelos vídeos curtos criou uma impressão de que ninguém mais tem paciência para conteúdos longos.
Mas os sinais são mais complexos.
O relatório da Morning Consult sobre influencers em 2026 aponta que vídeos longos estão aprofundando a conexão com determinados públicos, especialmente entre Gen Z e homens.
Isso não significa que o vídeo curto esteja morrendo.
Significa que atenção não é a mesma coisa que duração.
Se o conteúdo tem valor, as pessoas podem permanecer.
Se não tem, elas saem em poucos segundos.
A próxima fase pode ser menos sobre influência e mais sobre comunidade
Talvez essa seja a principal mudança.
O creator do passado precisava convencer o maior número possível de pessoas a olhar para ele.
O creator do futuro pode precisar construir um grupo de pessoas que realmente queira continuar por perto.
Isso muda a lógica.
Em vez de:
“Quantas pessoas viram?”
começamos a perguntar:
“Quantas pessoas se importaram?”
Em vez de:
“Quantos seguidores tenho?”
surge:
“Quantas pessoas confiam no que eu digo?”
E em vez de:
“Quanto alcance consegui?”
a pergunta passa a ser:
“Que tipo de relacionamento estou construindo?”
Então, as pessoas estão cansadas dos creators?
Em parte.
Mas talvez a pergunta esteja errada.
As pessoas não parecem ter abandonado os creators. A economia continua crescendo e as marcas continuam investindo nesse mercado.
O que está acontecendo é uma seleção natural da atenção.
O público começa a ignorar aquilo que parece repetitivo, artificial, excessivamente comercial ou sem personalidade.
E continua prestando atenção quando existe alguma coisa que realmente vale o tempo.
Isso pode ser entretenimento.
Conhecimento.
Humor.
Identificação.
Inspiração.
Experiência.
Ou simplesmente uma pessoa interessante dizendo algo que ninguém mais está dizendo daquela maneira.
O futuro não é de quem publica mais
A próxima fase da economia dos creators provavelmente não será vencida por quem conseguir produzir a maior quantidade de conteúdo.
Será vencida por quem conseguir criar uma razão para ser acompanhado.
Porque, em um mundo onde todos podem publicar, editar, viralizar e até utilizar IA para produzir conteúdo, o verdadeiro diferencial deixa de ser a capacidade de aparecer.
Passa a ser a capacidade de ser lembrado e merecer atenção novamente.
E talvez essa seja a grande mudança:
o público não está necessariamente cansado de creators. Está cansado de sentir que cada pedaço do seu tempo virou uma oportunidade de alguém tentar vender alguma coisa.

