Se a IA faz campanhas, relatórios e criativos, pelo que uma agência deveria cobrar?

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Imagine contratar uma agência e receber uma proposta baseada em uma lista de tarefas.

20 criativos por mês.

8 campanhas.

4 reuniões.

2 relatórios.

12 posts.

Gestão de anúncios.

Copywriting.

Apresentações.

Até pouco tempo, esse modelo fazia bastante sentido.

Cada entrega exigia pessoas, horas de trabalho, ferramentas e processos.

Agora, uma parte significativa dessas tarefas pode ser acelerada ou parcialmente automatizada por inteligência artificial.

Um profissional consegue gerar dezenas de ideias de anúncios em poucos minutos.

Relatórios podem ser resumidos automaticamente.

Textos podem ser produzidos e adaptados.

Imagens podem ser criadas.

Vídeos podem receber roteiros, legendas e variações.

Campanhas podem utilizar sistemas automatizados para encontrar públicos e distribuir orçamento.

Então surge uma pergunta desconfortável para o mercado:

se a IA reduziu o custo de executar boa parte dessas tarefas, por que o cliente deveria continuar pagando uma agência como se nada tivesse mudado?

A IA não acabou com o trabalho. Ela mudou o preço do trabalho

A primeira consequência da inteligência artificial não é necessariamente eliminar profissionais.

É reduzir o tempo necessário para determinadas atividades.

Um relatório que antes consumia duas horas pode levar alguns minutos para ser estruturado.

Uma primeira versão de um anúncio que exigia briefing, pesquisa e produção pode surgir rapidamente.

Uma apresentação que ocupava uma tarde pode ser criada em pouco tempo.

Isso significa que o custo operacional de produzir determinadas entregas tende a cair.

E quando o custo de produção cai, existe uma pressão natural sobre o preço.

É a mesma lógica que aconteceu diversas vezes na história da tecnologia.

Quando uma tarefa fica mais rápida e barata, cobrar simplesmente pela execução daquela tarefa se torna mais difícil.

O problema de cobrar por volume

É aqui que algumas agências podem enfrentar um problema.

Se a proposta comercial é:

“Entregamos 30 criativos por mês.”

A pergunta do cliente pode ser:

“Quanto desses 30 criativos foi produzido com IA?”

Não necessariamente como uma acusação.

Mas como uma questão econômica.

Se uma agência consegue produzir 30 peças com uma fração do tempo que utilizava anteriormente, o cliente pode começar a questionar por que o preço continua baseado no volume de produção.

O mesmo vale para relatórios.

Ou copies.

Ou apresentações.

Ou pesquisas preliminares.

Ou análises que podem ser automatizadas parcialmente.

O cliente não está necessariamente comprando menos valor.

Ele está começando a perceber que a produção do entregável deixou de ser a parte mais cara da operação.

A agência não deveria vender horas

Existe uma consequência importante aqui.

Se a agência cobra principalmente por horas, ela está vendendo tempo.

E tempo é justamente uma das coisas que a IA consegue multiplicar.

Um profissional com boas ferramentas pode fazer em uma hora o que anteriormente exigia várias horas.

Isso cria uma situação estranha.

Quanto mais eficiente a agência fica, menor deveria ser sua receita se o modelo continuar baseado em horas.

A tecnologia melhora a produtividade.

Mas o modelo de cobrança pune a produtividade.

Não parece sustentável.

Então pelo que a agência deveria cobrar?

A resposta não deveria ser simplesmente “por resultado”.

Isso também pode ser problemático.

Marketing não funciona em um ambiente totalmente controlável.

Uma agência pode executar corretamente uma estratégia e ainda enfrentar problemas relacionados a produto, preço, atendimento, logística, mercado, concorrência ou operação comercial.

Por isso, existe uma diferença importante entre ser responsável pelo marketing e ser responsável por todo o negócio.

O valor da agência pode estar em outro lugar.

1. Estratégia

Uma IA pode gerar 100 ideias.

Isso não significa que as 100 sejam boas.

Muito menos que sejam adequadas para aquela empresa.

Alguém precisa decidir:

Qual problema estamos tentando resolver?

Qual público importa?

Qual posicionamento será utilizado?

Qual oferta faz sentido?

Qual canal deve receber investimento?

Qual mensagem deve ser abandonada?

A estratégia é a capacidade de escolher.

E escolher continua sendo uma atividade de alto valor.

2. Direção criativa

A IA consegue produzir variações.

Mas alguém precisa definir o território criativo.

Uma agência pode usar inteligência artificial para produzir 50 versões de um conceito.

O diferencial não está necessariamente em conseguir gerar as 50.

Está em saber qual conceito merece ser multiplicado.

Isso muda o papel do diretor criativo.

Menos produção manual.

Mais direção.

Menos execução repetitiva.

Mais definição de conceito.

3. Interpretação

Ter dados não significa saber o que fazer com eles.

Uma plataforma pode mostrar milhares de números.

CTR.

CPC.

CPM.

Conversão.

ROAS.

Retenção.

Frequência.

Engajamento.

Mas o cliente precisa de alguém capaz de interpretar o conjunto.

Por que determinada campanha caiu?

O problema está no criativo?

Na oferta?

No público?

Na página?

No preço?

No processo comercial?

A agência que apenas entrega um dashboard começa a perder valor.

A agência que transforma dados em decisões ganha importância.

4. Tomada de decisão

Esse talvez seja um dos maiores valores que uma agência pode vender.

O cliente não precisa necessariamente de mais informação.

Ele precisa saber o que fazer agora.

Cortar orçamento?

Aumentar?

Trocar a oferta?

Mudar o criativo?

Parar uma campanha?

Testar outro público?

Alterar a página?

Mudar o posicionamento?

A inteligência artificial pode ajudar a analisar essas possibilidades.

Mas alguém precisa assumir a responsabilidade pela decisão.

5. Integração

Outra função importante da agência pode ser conectar diferentes áreas.

Conteúdo.

Mídia.

SEO.

CRM.

Vendas.

Branding.

Dados.

Automação.

Site.

Produto.

Uma empresa pode ter dez ferramentas de IA e ainda assim operar de maneira completamente fragmentada.

A agência pode deixar de ser uma “fábrica de peças” para funcionar como uma espécie de sistema de integração de marketing.

6. Conhecimento do negócio

Esse ponto é especialmente importante.

Uma IA consegue produzir uma campanha para uma empresa.

Mas uma agência que conhece profundamente o negócio pode entender coisas que não aparecem em um briefing.

Por que determinados clientes compram?

Por que outros desistem?

Qual objeção aparece constantemente no comercial?

Qual produto possui margem maior?

Qual promessa o mercado já está cansado de ouvir?

Qual argumento funciona na loja, mas não funciona no anúncio?

Esse conhecimento acumulado pode valer muito mais do que a capacidade de produzir 20 artes.

A agência precisa parar de esconder a IA?

Talvez.

Durante algum tempo, algumas empresas trataram a inteligência artificial quase como um segredo operacional.

Como se admitir que utilizam IA diminuísse o valor do serviço.

Mas existe uma lógica diferente.

Um advogado usa software.

Um contador usa sistemas.

Um designer usa ferramentas.

Um engenheiro usa programas especializados.

O valor não está necessariamente em fazer tudo manualmente.

O valor está em saber utilizar as ferramentas para resolver um problema.

A agência pode assumir:

“Utilizamos IA para aumentar nossa capacidade de produção.”

Isso não necessariamente reduz seu valor.

Pode mostrar eficiência.

O problema aparece quando a agência continua cobrando como se ainda precisasse executar tudo manualmente.

O cliente pode começar a montar sua própria microagência

Essa é outra transformação importante.

Uma pequena empresa hoje pode ter acesso a:

IA para texto.

IA para imagem.

IA para vídeo.

IA para análise.

IA para apresentações.

IA para automação.

IA para atendimento.

IA para pesquisa.

IA para planejamento.

Isso reduz a barreira de entrada para executar algumas atividades internamente.

Consequentemente, a agência que vendia apenas produção pode enfrentar uma concorrência diferente.

Não é outra agência.

É o próprio cliente.

E, em alguns casos, um funcionário do cliente equipado com IA.

O que fica difícil de automatizar?

Não existe uma fronteira definitiva.

A tecnologia continua avançando.

Mas algumas atividades tendem a depender mais de contexto, julgamento e relacionamento.

Entender profundamente o negócio.

Fazer perguntas difíceis.

Identificar problemas que o cliente não percebeu.

Desafiar uma decisão ruim.

Conectar informações diferentes.

Assumir responsabilidade.

Priorizar.

Negociar.

Defender uma estratégia.

Saber dizer “não”.

Essas atividades podem ser apoiadas por IA, mas não desaparecem simplesmente porque uma ferramenta consegue produzir texto ou imagem.

O novo contrato pode ser baseado em inteligência

Isso não significa que todas as agências precisam abandonar mensalidades.

Uma agência pode continuar trabalhando com fee mensal.

A diferença está no que esse fee representa.

Em vez de:

“Você paga X por 20 criativos, 12 posts e quatro relatórios.”

Poderia ser:

“Você paga X pela direção estratégica, gestão do sistema de aquisição, análise, experimentação e tomada de decisão.”

Os criativos continuam existindo.

Os relatórios continuam existindo.

As campanhas continuam existindo.

Mas deixam de ser o produto principal.

Passam a ser instrumentos para entregar o produto principal.

Decisão.

O preço não precisa cair. O valor precisa mudar de lugar

Essa é talvez a conclusão mais importante.

A IA pode reduzir o custo de produção sem necessariamente reduzir o valor de uma boa agência.

Mas isso exige uma mudança.

Se a agência continuar vendendo execução, a comparação com ferramentas de IA será inevitável.

Se vender estratégia, direção, conhecimento, integração e tomada de decisão, a comparação muda.

O cliente não está mais perguntando:

“Quanto custa produzir isso?”

Ele começa a perguntar:

“Quanto vale ter alguém que sabe o que fazer com tudo isso?”

E essa é uma pergunta muito mais difícil de responder.

Também é uma oportunidade.

Porque a agência do futuro talvez não seja a que produz mais peças.

Pode ser a que toma melhores decisões com menos desperdício.

A IA pode fazer campanhas.

Pode criar relatórios.

Pode gerar criativos.

Pode analisar dados.

Pode produzir apresentações.

Mas alguém ainda precisa decidir o que merece ser feito.

E talvez seja exatamente aí que esteja o novo produto de uma agência.

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